Leia agora a entrevista com uma cuidadora que participa do Café Memória, Anabela Lima, feita com a embaixadora do projeto de storytelling, Luísa Castel-Branco.

L - Anabela, o que é que faz profissionalmente ou o que é que fez ao longo da sua vida?

A - No meu último emprego eu tinha um café, geria um café que tive que deixar por causa do meu marido.

L - Um café pequenino?

A - Sim, sim.

L - Era um dos meus sonhos, ter um café pequenino.

A - Era? Mas dá tanto trabalho, é uma prisão.

L - Eu tive um restaurante e perdi logo a ideia. E tem filhos?

A - Tenho dois filhos, uma rapariga com 40 anos, um neto de 7 e um rapaz de 35.

L - Nós vamos fazer perguntas e se não quiser responder, diz não. Sabemos que está no café memória desde o primeiro dia, certo?

A - Desde abril de 2013, a primeira sessão.

L - E veio então com o seu marido?

A - Na altura sim, ele tinha sido diagnosticado dois anos antes em 2003, 2010 e eu desde 2010 a 2013 andei perdida, desorientada...

L - Desculpa, vou voltar um bocadinho atrás. E como é que foi detetado? Ele tinha uma vida profissional ativa e como é que a pessoa....?

A - O comportamento dele começou a ficar estranho porque as atividades que ele gostava começaram a ficar para trás, não tinham interesse. O click deu-se-me quando, lá em casa tínhamos montes de toalhas e eu pedi-lhe uma toalha de uma cor e ele foi-me dando todas menos a cor que eu tinha pedido. Aí pensei que ele tivesse a brincar.. Comecei a ficar mais atenta e comecei a perceber que ele não sabia muito bem o que estava a fazer. Nas formas das caixas de tupperware, nunca acertava nas formas e achei que aquilo era um bocado esquisito. Comecei a ficar atenta. Depois fui para a médica de família, a médica de família mandou fazer uma TAC que não deu nada. Eu não descansei porque as coisas iam-se sucedendo cada vez mais estranhas até que acabei por ir para neurologia, foi aí que o detetaram.

L - Que trabalho é que ele tinha?

A - Estávamos juntos nessa altura, no café.

L - Foi para neurologia e aí conseguiram detetar.

A - Exato, aí fez exames mais específicos, foi a punção lombar, fez um outro exame e uma ressonância magnética.

L - E o processo foi muito rápido ou...? Foram 8 anos, não é?

A - 9, sim 2010. Até que eu soubesse foi cerca de um ano e meio mas tive que rever inicialmente médico particular.

L - Neste processo, nestes anos com a doença acabou por fechar o café, não é?

A - Ao fim de seis anos.

L - É preciso dedicar-se a uma pessoa que tem uma doença como Alzheimer, dedicar-se completamente, é?

A - Nós temos que nos adaptar a uma nova pessoa, o meu marido esqueceu muito cedo... tudo. Nem presente, nem passado. Ele não sabia nada. Portanto sabia que tinha sede mas não sabia ir buscar um copo de água. Eu dediquei-me a ele muito cedo. Ele esteve mais ou menos bem durante uns 4 anos. Depois começou a piorar assim muito. A não saber ir à casa de banho... não sabia as coisas. Porque ele tinha a doença vascular-cerebral e um tipo de alzheimer, era dose dupla. Quando saiu do emprego, ele acompanhava-me todos os dias para o trabalho, às 5:30 da manhã íamos todos os dias. Eu depois tinha que estar atenta aos clientes, a ele... o ambiente era muito restrito e ele até ficava mais ou menos mas com o passar do tempo começou a ser muito complicado.

L - A pessoa tem que se adaptar à pessoa que está doente... Esta adaptação foi com certeza muito difícil?

A - Muito difícil, inicialmente houve uma rejeição da minha parte. Eu sabia mas não queria aceitar. Pensava "não, não pode ser, com ele não". Depois foi um sentimento de culpa de que poderia fazer mais e não estava a fazer porque me zangava muitas vezes. Porque era eu que, durante 2 anos fiz estimulação cognitiva com ele. Chegávamos a casa do trabalho e era eu que fazia planos, fazia jogos, fazia-lhe ditados, fazíamos contas e era muito complicado depois de um dia de trabalho de ver que ele era tão bom em tudo e não conseguia responder... para nós é uma desolação tão grande mas para ele ainda mais. E depois era um sentimento de culpa porque muitas vezes eu exaltava-me “mas tu sabes, tu sabes!”

L - Há uma fase em que o doente deixa de estar cá?

A - É. No meu caso, mais tarde, ainda durou à volta de uns 6 anos. Portanto, o Valdemar em 2016 é que começou a piorar. Eu entretanto ao fim de 3 anos de estar a fazer estimulação fiquei com uma depressão grave e tive necessidade de procurar um sitio para o deixar e acabou por ir para a casa do Alecrim, que é de Alzheimer. Foi o sitio ideal, tive sorte. Andei à procura de muitos e aquilo era tudo... não estão preparados para receber pessoas com demência. Eu estava com receio que ele reagisse mal mas reagiu muito bem e ainda lá esteve até 2016 em centro de dia. Em 2016, no final de 2016 eu tive que largar o emprego porque ele já não conseguia subir para a carrinha e não havia possibilidades de o levarem para o centro. Portanto eu tive que deixar o emprego, fiquei sem nada, para o levar e ir buscar.

L - E os filhos como é que reagiram?

A - Reagiram bem, um dos filhos está na área de saúde e sempre me preparou, sabia o que é que ia acontecer. É ele o meu grande apoio, é um rapaz. Somos muito unidos nisto, as decisões de o internar foi tudo a três.

L - E agora voltemos para o café memória. Eu sei que o seu marido era muito querido por estas pessoas.

A - Ele era muito divertido. Tenho memórias muito engraçadas porque cada vez que havia jogos, principalmente com música, ele gostava muito de música e as perguntas são feitas a cada pessoa e ele como sabia sempre as respostas estava sempre a dar as respostas antes dos outros e eu punha-lhe a mão na boca e ele ria à gargalhada. Ele gostava muito do Café Memória, nunca percebeu para o que era, era um sitio onde ele se divertia. A primeira vez que eu vim com ele, eu vim à descoberta e saí muito leve por ver que houve logo uma empatia muito grande, gostei do conceito e vi que ele estava bem. Quando haviam palestras, era sempre para o lado dos voluntários fazerem trabalhos, atividades. Senti que ali iria ter apoio e aprender muito. Foi realmente o que aconteceu. Sempre com vontade que o mês  muito depressa.

L - E para si em que é que o Café Memória ajudou neste processo?

A - Em tudo, ajudou-me a compreender melhor a doença, a aceitá-la, em tudo. A fazer muitos amigos que acho que são amigos para a vida e que estamos sempre prontos uns para os outros. Entendemo-nos, há muita partilha. Eu posso dizer que os meus amigos do momento são os amigos do Café Memória, estamos sempre juntos, fazemos parte de um grupo de terapia, foi muito importante.

L - Como é que está a ser recomeçar a vida?

A - Difícil, muito difícil... há um vazio muito grande, ficou um vazio (aponta para o coração)... isso é que é complicado.

L - Fica o vazio porque mesmo com todas as limitações, com tudo há o amor que havia, não é?

A - Muito. É por isso que eu não me consigo lembrar do meu marido na fase piore, é sempre nas fases boas e oiço ainda a alegria contagiante dele. É saudade, é a dor da saudade que é forte.

L - Há um processo de luto que vai ter de fazer mas a verdade, é horrível o que eu vou dizer, a maior parte das mulheres não têm esse momento de felicidade. No meio desta coisa horrível toda existe uma coisa que é, alguém viveu uma história de amor e essa está aí dentro para o resto da vida.

A - Sempre, sim.

L - E vai continuar a vir ao Café Memória?

A - Sim, o meu marido fez 2 meses na quinta-feira e eu continuo a vir porque acho que faz todo o sentido, por ele e por mim também.

L - Exatamente, que é para irmos conversando.

A - E ajudar outras pessoas.

L - E vai ajudar de certeza, passando esta fase difícil vai ajudar outras pessoas.

A - Isto vai com o tempo, acaba por... eu quero acreditar que sim.

L - Claro que vai.

A - Ainda é muito cedo.

L - Muito obrigada pelo seu testemunho.

A - Obrigada eu. Estou muito feliz por o Café Memória ter crescido imenso, cresceu imenso e estou muito feliz.