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1º Capítulo – Entrevistas com Elsa Monteiro e Rosário Reis

É com muito orgulho que apresentamos a segunda e terceira entrevistas do 1º Capítulo do projeto de Storytelling do Café Memória pela Nave16. Estas são mais duas das seis entrevistas com os principais parceiros do Café Memória: Sonae Sierra, Associação Alzheimer Portugal, Fundação Gulbekian, Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, fundação Montepio e Instituto de Ciência de Saúde da UCP.

As entrevistas foram feitas pela embaixadora do projeto, Luísa Castel-Branco e por um membro da equipa Nave16.

1ª entrevista: Dra. Elsa Monteiro - Sonae Sierra

  1. Como surgiu a ideia de criar o Café Memória em Portugal?

Em outubro 2010 em conversa com um colega que se tinha reformado, Adrian Ford, tomei conhecimento das atividades dele de voluntariado relacionadas com um Memory Café que ajudou a criar em Sidmouth, no Reino Unido: o Sid Valley Memory Café.  Logo na conversa comentei que seria interessante a Sonae Sierra promover alguma iniciativa semelhante nos seus centros comerciais, como forma de aumentar o seu envolvimento e contributo para as comunidades em que opera. Este tipo de projeto inseria-se no âmbito da estratégia de sustentabilidade que a Sonae Sierra prosseguia.

  1. Por que houve a parceria entre a Associação Alzheimer e a Sonae Sierra?

Qualquer projeto relacionado com demência não faria sentido sem o acordo e envolvimento da Associação que era única organização em Portugal de âmbito nacional especificamente constituída para promover a qualidade de vida das pessoas com demência e dos seus familiares e cuidadores. Fazia por isso todo o sentido unirmos esforços para melhorar e completar a resposta a uma problemática crescente no nosso país.

  1. Por que sentiu necessidade de criar o Café Memória?
  2. Já conheciam o conceito internacional “Memory Café”. Há muitas semelhanças entre os dois conceitos?

Em novembro 2010 e na sequência da nossa conversa, o Adrian Ford enviou-me informação sobre o conceito de Memory Café e o Sid Valley Memory Café, em particular. Quando iniciei a pesquisa sobre a temática da demência em Portugal conclui que o formato desenvolvido no Reino Unido não era possível em Portugal. Desde logo, tratava-se de uma resposta inserida na Estratégia Nacional da Demência de 2009 do governo Britânico, apoiada financeiramente, entre outros, pelos Centros Regionais de Saúde e pelo Rotary Club, e os Memory Café's nos diferentes locais nasciam em resultado da iniciativa da sociedade civil de cada região.

Em Portugal: não estava aprovado o Programa Nacional para as Demências; a resposta formal às necessidades das pessoas com demência e aos seus cuidadores era reduzida e pouco especializada; estávamos em plena crise económica e por isso, quer o Estado, quer as empresas tinham grandes limitações orçamentais; a sociedade civil não era muito dinâmica para iniciativas comunitárias que não inseridas em associações ou instituições.

Foi por isso necessário pensar num modelo que:

  • tivesse uma liderança profissionalizada para permitir testar o conceito e fazê-lo crescer, criando uma rede de cafés memória;
  • que garantisse a sua sustentabilidade financeira, envolvendo empresas e outras organizações com interesse no tema, procurando obter destas sobretudo contributos não pecuniários ligados ao que é o core business de cada uma;
  • e ainda que beneficiasse da participação de voluntários na dinamização das sessões dos cafés memória, que seriam especificamente treinados para o efeito.
  1. Quanto tempo demorou desde que a ideia surgiu na vossa cabeça, passou para o papel e concretizou-se?

Dois anos e meio (desde outubro 2010 até à assinatura do protocolo de criação dos dois Cafés Memória no Centro Colombo e no Cascaishopping a 2 Abril 2013 que marcou o lançamento do projeto em Portugal)

  1. Quais foram os primeiros passos dados?

Comecei por recolher informação sobre a temática das demências e o tipo de resposta existente em Portugal para definir os moldes em que a Sonae Sierra poderia promover um projeto Memory Cafe. Mas na verdade, até agosto de 2012 pouco avancei na concretização do projeto. Foi quando decidi procurar ajuda e encontrei a pessoa ideal: a Catarina Alvarez que, eu conhecia há anos, tinha acabado a licenciatura e o mestrado em psicologia (já era jurista) e estava a trabalhar na área de apoio aos idosos e em iniciativas ligadas com questões de demência.

Para a definição do modelo a usar em Portugal era importante a Catarina conhecer pessoalmente a experiência do Memory Cafe no Reino Unido. E, portanto, com o apoio do meu colega Adrian Ford, em janeiro de 2012, a Catarina foi participar numa sessão do Sid Valley Memory Cafe e falar com as pessoas que estiveram na origem e dinamizaram o conceito no Reino Unido: David Light e John Summerside. A Catarina coordenou uma equipa multidisciplinar para definir o projeto como se de um ‘novo negócio’ se tratasse, incluindo: definição do conceito; justificação da oportunidade; enquadramento e estatuto legal; estrutura do plano de negócio (Recursos Humanos, Materiais e Financeiros e Parcerias); modelo financeiro (com cenários); estratégia de comunicação; imagem corporativa – guidelines; plano de divulgação e plano de implementação. A 3 agosto 2012 tivemos a nossa primeira reunião com a Presidente da Direção da Alzheimer Portugal, Dr.ª Maria do Rosário Zincke dos Reis, para apresentar o projeto. Ficámos a saber que a Associação tinha em curso um outro projeto, Cuidar Melhor financiado por parceiros institucionais, destinado a apoiar os cuidadores de pessoas com demência.

Por iniciativa da Dr.ª Maria do Rosário, foi proposto aos demais parceiros do Cuidar Melhor que os Cafés Memória passassem a integrar esse projeto, completando a resposta à problemática das demências. Esse processo culminou com a entrada da Sonae Sierra no protocolo que já tinha sido subscrito pelos vários parceiros para a criação do projeto Cuidar Melhor: Fundação Gulbenkian, Fundação Montepio, Universidade Católica, Alzheimer Portugal e Municípios de Cascais, Oeiras e Sintra. Nesse protocolo ficou definido que a Sonae Sierra e a Alzheimer Portugal promoveriam o projeto Café Memória conforme o modelo preconizado pela Sierra, tendo como coordenadora do projeto a Catarina Alvarez.

A Catarina foi também nomeada coordenadora do Projeto Cuidar Melhor, o que de alguma forma traduz o reconhecimento do bom trabalho no desenvolvimento do modelo dos Cafés Memória.  Em paralelo, a Sonae Sierra procurou angariar o interesse de outros parceiros na implementação de Cafés Memória, tendo sido possível celebrar o protocolo de criação dos dois Cafés Memória no Centro Colombo e no Cascaishopping com várias instituições e empresas que acreditaram na bondade da iniciativa: Alzheimer Portugal, Fundação Gulbenkian, Fundação Montepio, Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa, Portugália Restauração, Optimus, Delta Cafés, Sumol+Compal, Celeiro, CPP e Bial. Durante o mesmo período, procurámos também atrair a participação de voluntários e realizar as sessões de formação. Eu também sou voluntária.

A primeira sessão de um Café Memória teve lugar a 6 de abril 2013 no Centro Colombo. Ainda no decorrer do primeiro ano de atividades dos dois cafés Memória do Colombo e de Cascaishopping, desenvolvemos um modelo de ‘franshising social’ inovador que serviria de base para a expansão do número de cafés memória, criando uma rede sob coordenação única da Alzheimer Portugal. Esse modelo garante a subordinação de todos os cafés memória aos mesmos objetivos, princípios, procedimentos de funcionamento e reporte, formação das equipas e modelo de financiamento.

  1. Quais foram os maiores desafios para pôr de pé este projeto?

Um primeiro desafio foi a criação do próprio projeto, em particular do modelo que garantisse a sua viabilidade no curto e médio prazo. Angariar o interesse das instituições e parceiros numa época de crise para um projeto pioneiro que não tinha provas dadas foi um grande desafio. Atrair participantes para as sessões dos Cafés Memória era outro grande desafio. Tínhamos de encontrar os melhores canais para divulgar a iniciativa e convencer as pessoas que valia a pena participarem. Julgo que este era o aspeto determinante do sucesso do projeto. Se as pessoas a quem queríamos ajudar não aderissem ao conceito, era irrelevante tudo o resto…

  1. Do que é que mais se orgulham?

Tenho imenso orgulho em tudo o que foi conseguido até agora: a rede de quase 21 Cafés Memória, o Café Memória faz-se à estrada. Conseguimos agregar esforços de muitos parceiros, e sobretudo concretizar o objetivo a que nos propusemos: contribuir para ajudar um grande e crescente número de pessoas atingidas, direta ou indiretamente, por problemas de demência. É bom ver que o bebé evoluiu, cresceu e já tem uma dinâmica própria. Para isso contribuiu muito ter escolhido a pessoa certa para coordenar o projeto.

  1. Conseguem destacar um momento, ao longo destes seis anos, que vos tenha marcado?

É difícil destacar apenas um momento… O evento de lançamento do projeto no dia 2 abril 2013 foi um momento gratificante, em que pelo menos conseguimos arrancar com o projeto. Os minutos que antecederam a primeira sessão do Café Memória a de 6 de abril 2013 no Centro Colombo foram de grande ansiedade: será que iria aparecer algum participante? Não consigo deixar de me emocionar quando vejo o depoimento de alguns dos participantes nos Cafés Memória em que referem o quanto o projeto significa para eles… Também não posso deixar de referir o momento que em pela primeira vez recebi o contacto de uma outra instituição – Santa Casa Misericórdia de Lisboa - manifestando o interesse em criar mais um Café memória para além dos dois que já estavam a funcionar há cerca de seis meses. Isso significava um certo reconhecimento de que conceito podia ter futuro.

  1. Elsa, por que se empenhou em fazer nascer este projeto? Como é que toda a equipa da Sonae Sierra se envolve nesta parceria?

Tendo como responsabilidade Sustentabilidade, acredito que a Sonae Sierra pode fazer crescer o seu negócio contribuindo em simultâneo para responder a desafios ambientais e sociais. Por isso, este projeto pareceu-me traduzir um desses desafios a que a Empresa podia dar algum contributo positivo. No decorrer do processo de concessão do projeto ocorreu também uma situação a nível pessoal que me fez acreditar da bondade do mesmo: foi diagnosticada demência a um amigo e acompanhei as dificuldades da família em lidar com a situação e constatei a falta de suporte com que se defrontaram. A equipa da Sonae Sierra envolve-se no projeto a vários níveis. Temos vários voluntários em diferentes Cafés Memória e contribuímos para a divulgação do projeto, quer internamente quer externamente.

  1. Já passaram seis anos desde que o Café Memória foi criado. O que pensa que pode ainda acontecer neste projeto?

Espero que continue a crescer o número de cafés memória e também em diferentes tipos de resposta para prosseguir o objetivo que esteve na sua origem.

2ª entrevista: Dra. Rosário Zincke dos Reis - Associação Alzheimer Portugal

LCB – Qual é a sua graça?

RZR – A minha graça é Rosário.

LCB – Gosto imenso. Tenho utilizado nos meus livros. É um nome forte.

RZR – Foi o meu avô materno que escolheu.

LCB – Antes usava-se, deixou de se usar e agora está outra vez na moda. A vida dá uma volta. Rosário, qual é o seu cargo?

RZR – Neste momento, faço parte da direção da Alzheimer Portugal. Durante alguns anos fui presidente da direção e o que me levou à associação foi o facto de a minha mãe ter a doença de Alzheimer. Uma amiga da infância desafiou-me para fazer parte da associação, era necessário alguém para fazer parte da direção, eu alinhei e fiquei durante 12 anos. Nesses 12 anos aprendi imensíssimo.

LCB – Uma pessoa que tem uma experiência de ver alguém relacionado com a doença de Alzheimer ou com outra demência, a sua participação é completamente diferente...

RZR – A motivação é capaz de ser diferente. Mas devo dizer que ganhei imenso ao longo destes anos e consegui articular a minha vida profissional, sou advogada, com os temas que tenho vindo a desenvolver na Alzheimer Portugal. Ou seja, Direitos das pessoas com a capacidade diminuída, com demência ou qualquer outro tipo de situação. Isso tem sido um grande desafio, porque no fundo acabo por conciliar todos os aspetos da minha vida e tudo acaba por ficar em harmonia.

LCB – O que as mulheres fazem que os homens que os homens não conseguem, não é?

RZR – É verdade (risos)

LCB – Qual é a sua posição sobre esta lei do cuidador?

RZR – Para já ainda não temos nada de concreto, mas acho que é importante que se reconheça o papel do cuidador, não só direitos, mas deveres do cuidador. De qualquer das maneiras, acho que é um passo que tem de ser dado. Não é uma originalidade do nosso país, é algo que existe por todo lado na Europa e não só.

LCB – É uma luta pessoal do nosso presidente da República...

RZR – Tem sido, vamos ver até onde se consegue ir.

LCB – Mais trabalho para si...

RZR – Há um tema que está muito mais em cima da mesa: o estatuto do maior acompanhado. Interdições e inabilitações já não existem. Agora existe um regime que é muito mais promotor dos direitos das pessoas com capacidades diminuídas e esta tem sido uma das bandeiras da Associação Alzheimer ao longo dos anos. Aí eu tenho estado envolvida em grande.

LCB – O que mudou?

RZR - As pessoas podem precisar de ser ajudadas para cuidar dos aspetos do dia-a-dia, gerir o seu património, tomar decisões de saúde, etc... Mas não significa que estejam completamente incapazes de fazer tudo e mais alguma coisa. O que se pretende com este novo regime, é que não se limite mais do que necessário a autonomia da pessoa. É uma diferença radical em relação aquilo que tínhamos antes.

LCB – Antes a pessoa tinha algumas diminuições e havia sempre alguém da família que achava que as diminuições eram maiores e já agora...

RZR – Não só da família, mas os próprios tribunais estavam formatados para essas decisões radicais que tinham acolhimento na lei então em vigor.

LCB – Estamos a caminhar para uma humanização?

RZR – Sim, demora muito tempo, mas estamos.

LCB – Muito, muito, muito...

RZR - Demora muito tempo e não basta que mude a lei, é preciso que mude as mentalidades e há muito trabalho a fazer a esse nível. Faço questão que a Alzheimer Portugal esteja na linha da frente em relação a este assunto.

LCB – Tem medo que lhe aconteça a si o que aconteceu à sua mãe?

RZR – Não tenho medo, mas tenho vindo a pensar como posso planear o meu futuro, nomeadamente se os meus familiares, nomeadamente as minhas filhas, possam ter de tomar decisões complicadas sobre a minha saúde.

LCB – Aconteceu-me a mim isso com o meu AVC , comecei a planear o meu futuro para não ser um peso para ninguém. A experiência leva-nos a isso, não é?

RZR – Sim, tem de haver sempre um motivo, não é do nada que nós começamos a pensar no futuro de forma sistematizada e com medidas concretas.

LCB – Mas já me disse que o Café Memória traz novas esperanças.

RZR – Foi um desafio muito grande para a Alzheimer Portugal e, inicialmente, eu até desconfiei do sucesso e vou explicar porquê. A nossa sociedade ainda não está preparada, hoje já está um bocadinho mais preparada do que estava há meia dúzia de anos, para envolver as pessoas com demência e o Café Memória é um local privilegiado para que isso aconteça. É um local descontraído, onde as pessoas se sentem bem, envolvidas, e qualquer pessoa com problemas de memória com diagnóstico ou não de demência, pode participar e pelo que tenho constatado as pessoas sentem-se bem, sentem-se envolvidas e encontram algum significado para aquilo que fazem no dia-a-dia.

LCB – É mais uma experiência da sua vida e depois é muito difícil afastar a cabeça do coração com essas vivências que se vai tendo, não é?

RZR – As vivências vão-se completando umas às outras e o desafio é esse: olharmos para as nossas vivências e percebermos como com elas conseguimos fazer algo melhor para os outros.

Nave16 – No Café Memória estão não só as pessoas com demência, mas também os cuidadores. O Café Memória ajuda os cuidadores a lidar com o medo e a pensar como poderá ser o futuro deles?

RZR – Sim, se bem que a perspetiva é sempre otimista para que o que ali se vive seja um momento de descontração, o que não quer dizer que as pessoas não partilhem umas com as outras aquilo que as preocupa. Mas a tónica principal é ser um momento de descontração em que as pessoas se sintam bem.

Nave16 – Como surgiu esta possibilidade de se associarem ao Café Memória?

RZR – A ideia não foi da Alzheimer Portugal, mas sim da Elsa da Sonae Sierra, que ficou entusiasmada com o conceito que conheceu do Reino Unido e achou que era interessante replicar em Portugal. Foi o pontapé de saída para o projeto que aconteceu menos de um ano depois. Eu entusiasmei-me com a ideia, era uma maneira de envolver as pessoas com demência, tive algumas dúvidas do sucesso porque ainda não estamos muito preparados para assumir com naturalidade o convívio com pessoas que têm algumas especificidades, como acontece com as pessoas com demência, mas felizmente o Café Memória tem sido um grande sucesso e tem vindo em crescendo.

Nave16 – Qual o papel da Associação Alzheimer Portugal no Café Memória?

RZR – Toda a implementação no terreno é basicamente responsabilidade da Alzheimer Portugal.

Nave16 – Que passos foram dados para a implementação deste projeto?

RZR – O projecto teve de ser concebido, adaptado relativamente ao modelo do Reino Unido, existem sempre pelo menos dois técnicos e uma equipa considerável de voluntários que asseguram a dinâmica toda das sessões.

Nave16 – A necessidade de criar o Café Memória nem partiu da associação...

RZR – A necessidade até existiria, porque um dos aspetos mais importantes para nós tem sido o de envolver as pessoas com demência. Tem sido um processo difícil ainda hoje é. Temos esta experiência do café memória, procuramos fazê-lo nas nossas respostas, nos centros de dia, no lar que temos na Casa do Alecrim, tudo muito centrado nas pessoas com demência como não podia deixar de ser. Procuramos sempre o seu envolvimento social, sempre ligados com a família que é fundamental. Mas abrir à comunidade esta perspetiva não é uma cosia fácil. Sempre sentimos essa necessidade, mas foi preciso vir alguém de fora para conseguirmos concretizar e avançar com o projeto.

Nave16 – Do que é que mais se orgulha neste projeto?

RZR – Acho que é a forma como ele se tem desenvolvido, de uma forma muito sedimentada, muito responsável, sempre a pensar e a repensar se estamos a fazer bem, que ajustes é que devemos fazer. O que mais me orgulha é o projeto em si e a sua continuidade.

Nave16 – O que é para si o Café Memória?

RZR – É uma oportunidade de encontro de pessoas que se preocupam com esta problemática das demências.

Nave16 – Qual o futuro que gostava para o Café Memória?

RZR – Acho que vamos ter em mais locais do país. Temos agora o Café Memória faz-se à estrada que é uma oportunidade de chegarmos mais longe e a locais mais recônditos do nosso país. O futuro vai ser isso: crescer de uma forma sedimentada e responsável.

Continue acompanhando o projeto de Storytelling do Café Memória, teremos muitas entrevistas e conteúdos importantes pela frente.

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1º Capítulo – Entrevistas com Anabela Salgueiro e Rita Chaves

É com muito orgulho que apresentamos as primeiras entrevistas do 1º Capítulo do projeto de Storytelling do Café Memória pela Nave16. Estas são duas das seis entrevistas com os principais parceiros do Café Memória: Sonae Sierra, Associação Alzheimer Portugal, Fundação Gulbekian, Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, fundação Montepio e Instituto de Ciência de Saúde da UCP.

As entrevistas foram feitas pela embaixadora do projeto, Luísa Castel-Branco e por um membro da equipa Nave16.

1ª entrevista: Anabela Salgueiro, Fundação Gulbekian

LCB – Por que a Gulbenkian se envolveu como parceiro do Café Memória? A Anabela tinha ou tem alguém com problemas de demência próximo de si?

AS – Não, não tinha. A fundação é que tem com a demência uma preocupação grande. Começámos há bastante tempo a trabalhar estas questões sempre muito em parceria com a associação alzheimer e a fundação montepio, e isto já vem desde 2008, altura em que fizemos uns workshops aqui, com uma delegação do reino unido onde já se pensava reunir pessoas das mais diversas áreas, mas com preocupações relativamente à demência e às doenças neurodegenerativas. Portanto, isto tem havido um crescimento, digamos assim. Dos workshops que foram realizados aqui, em 2010, começou a pensar-se criar um projeto, montar algo que à partida seria para fazer com os municípios, em parceria com alguns municípios, e testar se era um formato interessante ou não. Isto era a criação de uns gabinetes técnicos que denominamos “cuidar melhor”, depois de passar por algumas aventuras de outros nomes e é um bocadinho na senda deste Cuidar Melhor que nasce o Café Memória, muito por entrada da Sonae Sierra que quis adaptar para Portugal um modelo que já existia noutros países, abordou a associação alzheimer e, por sua vez, juntaram-se aqui à equipa que já estava constituída para os ditos gabinetes técnicos.
LCB – É por isso que a Gulbenkian me irrita. Porque vocês estão sempre à frente daquilo que se devia fazer no país em todas as áreas.

AS – Uma das grandes vantagens da Gulbenkian é a sinergia que tem com os outros, é criar uma relação. Conseguimos sentar à volta da mesa pessoas de diversas áreas e construir algo. Muitos dos projetos que se vão desenvolvendo nesta área social, sobretudo, nascem muito assim. Portanto, quem é que já fez ou seria bom para fazer? Juntamos várias competências e é um bocadinho da partilha que se vai construindo.

LCB – O que é que estes anos de Café Memória vos trouxeram da experiência dos outros?

AS – Normalmente, na equipa onde estou que é Coesão e Integração Social, nós procuramos acompanhar os projetos. Já foi o tempo em que a fundação deu dinheiro para alguém fazer. Hoje em dia financia-se projetos, mas também se acompanha, também se está presente o melhor possível, o mais próximo possível. Vai-se acompanhando algumas das experiências que estes projetos vão trazendo. Eu já tive a oportunidade, poucas vezes, mas algumas, de estar nas sessões, e deixa-me sempre um bocadinho… A última experiência foi agora no sexto aniversário em que nós próprios que estávamos presentes para além dos utentes também fizemos parte da atividade. Senti-me completamente absurda porque eu caí na esparrela de uma das atividades. A pergunta tinha a ver com quantos animais é que Noé colocou na arca. E eu, toda lampeira, disse dois. Tinha de ser o par para poderem reproduzir-se. Mas a pergunta não era o Noé, era o Moisés, só que a pessoa está tão a querer fazer e a querer participar que nem repara. Não era fácil! Isto é uma experiência que bem demonstra que nós, se calhar, temos de passar mais por estas experiências para percebermos melhor. Não era nada de especial, mas que absurdo, como é que eu não pensei…

LCB – Não tendo ninguém na família com um problema destes, não é, portanto, nada que a assuste…

AS – Claro que me assusta. Não tenho na minha família, mas vejo à minha volta. Cada vez o número é maior, uma prevalência enorme e mais, nós vemos é que as pessoas que prestam os cuidados, o familiar, o cônjuge, o filho são pessoas que, muitas vezes não têm supervisão nenhuma. Como fazer? Qual é a melhor maneira? É evidente que instintivamente reagimos em função daquilo que nos parece ser o melhor possível, mas a verdade é que muitas vezes faz o que instinto manda, mas não aquilo que sabe que podia fazer. Aí temos um papel muito importante: informar, dar instrumentos, dar recursos às pessoas para que atuem da melhor maneira possível.

LCB – Sendo que, a vida na cidade, faz com que a maior parte dos casais não tenha sequer capacidade para lidar com alguém com problemas destes. A desertificação, a vinda para as grandes cidades também faz com que as pessoas não tenham no seu dia a dia capacidade e condições para lidar com situações como estas.

AS – É um problema concreto e muito complexo e confesso-lhe que não sei como é que se consegue chegar a todas as pessoas, porque não se pode institucionalizar toda a gente. Eu acho é que há que criar recursos próximos na comunidade que contribuam para a resolução desses problemas e aí eu acho que temos vindo a fazer um caminho muito interessante.

LCB – Há quem abandone os animais nas férias, o que é um crime, mas o que é mais horrível é quem abandona os familiares. E isso acontece sistematicamente.

AS – Quando nós reunimos aqui com uma série de instituições, há alguns anos, com uma equipa do Curry Cabral, o principal problema que eles assinalaram foi esse. Têm muitas pessoas que acabam por ir ficando. A família não os vai buscar e não há como libertar as pessoas se não houver um familiar ou alguém responsável por eles… Há imensas pessoas nessa situação.

LCB – Vivemos uma dicotomia: uma desumanização e uma crescente preocupação com as pessoas.

AS – Sim e eu acho que o Café Memória é um bom exemplo para isso, porque a sociedade civil está muito presente, as pessoas estão a querer fazer alguma coisa, a dar o seu contributo.

LCB – Portanto, é uma mensagem positiva.

AS – Absolutamente.

LCB – Aquilo que o Café Memória consegue trazer é um sorriso, não é?

AS – Sim, seguramente. E eu acho que também é mostrar saídas porque muitas vezes as pessoas estarão de tal maneira assoberbadas com a situação, sem saber para que lado se virar e também não terão muito conhecimento. Eu penso que uma pessoa que se depare com uma situação destas, não terá prévio conhecimento sobre a quem pode recorrer. Quais são os serviços, conhecimentos, recursos, o que seja. As pessoas não sabem e no Café Memória têm esse recurso, onde não se sentem constrangidas caso fosse noutro ambiente. É um fator muito importante.

Nave16 – Associarem-se ao Café Memória é uma forma de ajudarem os cuidadores também, até para depois não existirem essas situações de abandono...

AS – A linha de trabalho direcionada para os cuidadores tem sido uma tradição na fundação Gulbenkian, há muitos anos que há uma preocupação a esse nível, portanto este é um dos projetos que vem dar corpo a essa preocupação. Eu penso que fará toda a diferença, porque é uma porta de entrada porque a partir daqui podem ter pistas, podem ter encaminhamentos, para outras respostas mais estruturadas. Isso até os gabinetes técnicos, que este projeto tem associado, podem fazer um passo seguinte.

Nave16 – Há algum momento que a tenha marcado nestes seis anos de Café Memória?

AS – Há uma coisa relativamente recente que eu acho que até tem piada, que tem a ver como é que nasceu um bocadinho disto da itinerância. Hoje em dia, para além dos Café Memória que já são 20, o que em seis anos é extraordinário, e a itinerância – que se denomina Café Memória Faz-se à Estrada - terá nascido numa conversa telefónica com a Catarina Alvarez. Estávamos a falar como é que podíamos fazer chegar esta resposta aos locais com menos densidade populacional, onde não justifica criar uma resposta local permanente. E começámos a pensar como era a itinerância com as bibliotecas, para a literacia das pessoas e também o combate ao isolamento. Conversa puxa conversa e acabámos por pensar em estruturar um projeto um bocadinho à semelhança das bibliotecas itinerantes. Acho que foi uma bela ideia e o conjunto de sessões que já se realizaram e a crescente solicitação que tem havido são bem prova que foi uma boa ideia e que está a correr muito bem.

Nave16 – Foi importante para si participar nas sessões do Café Memória, ver como funciona?

AS – Claro que sim! Participei no 1.º, em abril de 2013, e agora no do 6.º aniversário. Não podia deixar de estar neste aniversário, agora já há um certo amadurecimento. Há uma participação muito ativa das pessoas, as pessoas estão mais descontraídas, é muito interessante ver isso.

Nave16 – É quase um ambiente de Café, a falar-se de assuntos sérios, mas com um sorriso nos lábios...

AS – Exatamente. As pessoas a partilharem com facilidade as suas experiências, o que também me surpreende, porque são questões um bocadinho do íntimo e as pessoas estão à vontade para partilhar, o que é extraordinário.

Nave16 – Em seis anos, 20 cafés memória, Café Memória Faz-se à Estrada, o que vai acontecer a seguir?

AS – É um bom balanço, não é? Acho que vamos continuar a crescer, o Café Memória pode ter uma dimensão nacional e acho que é muito importante estudar o impacto que o Café Memória está a ter na sociedade, para além do que está à vista, é preciso que se torne demonstrativo de que é eficaz.

2ª entrevista: Rita Chaves, Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

  1. Por que a SCML decidiu associar-se ao Café Memória?

Lembro-me que a nossa primeira reunião, em 2013, entre a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) e a Associação Alzheimer Portugal (AAP), tinha um âmbito completamente distinto do projeto Café Memória. Na altura, o Café Memória, contava apenas com 4 meses de existência, e obviamente o entusiasmo das responsáveis era contagiante. Acabou por ser um assunto inevitável nessa mesma primeira reunião, o que, pelos óbvios pontos convergentes com a Missão da SCML, acabou por originar uma junção de esforços muito positiva.

A SCML conhecia bem a realidade do seu segmento de utentes menos jovens, e reconhecia também que, no domínio das “maleitas” crónicas que subsistem nesta população, os estados demenciais são sem dúvida um motivo de enorme preocupação. Apresentava-se-nos um desafio que nos permitia ir além dos nossos espaços físicos de intervenção social. De apoiar uma causa que tão bem conhecemos, através do apoio informal à comunidade, da sensibilização, não só para a necessidade de diagnósticos atempados, mas também para os diferentes tipos de demência, para partilha de informação em vários domínios (jurídico, cuidados preventivos, métodos e técnicas de estimulação cognitiva, alimentação, etc), não só para quem tem já diagnóstico ou alguns sintomas de demência, mas sobretudo para toda a rede de suporte, sejam cuidadores formais, cuidadores informais, familiares, entre outros.

A destigmatização da doença seria inevitavelmente trabalhada pelo esclarecimento constante de questões menos claras, em conversas tidas em contexto informal, juntando à “mesa do café” pessoas que partilham muitos dos obstáculos, dificuldades – mas também alegrias, e soluções.

Foi exatamente por acreditarmos que não poderíamos deixar de estar presentes num projeto com esta dimensão humana de intervenção e impacto, que oferecemos a nossa disponibilidade para o início de criação de uma rede de Cafés Memória.

Graças aos pontos tangentes nas missões de ambas a instituição, e que passam pela construção de soluções e respostas que garantam um aumento da qualidade de vida de quem mais precisa, foi apenas uma questão de escolha de espaços adequados, de técnicos com experiência, e de voluntários, um dos bens mais preciosos deste projeto.

Em Fevereiro de 2014, assinaríamos o primeiro protocolo que contemplava dois novos espaços do Café em Lisboa, dinamizados pela SCML.

  1. Qual o vosso papel nesta parceria?

Fomos os primeiros parceiros externos desta rede, o que não só resultou como uma excelente “prova de conceito” do potencial de abrangência geográfica, como também acrescentou credibilidade ao projeto pelos excelentes resultados obtidos.

Neste momento a SCML assegura a continuidade dos 2 CM que deram início a esta parceria, formalmente estabelecida no início de 2014. O CM Lisboa Chiado, realizado nas instalações dos serviços centrais da SCML (2.º sábado de cada mês) e o CM Lisboa Castilho, realizado no espaço Atmosfera M do Montepio Geral Associação Mutualista, no 3.º sábado de cada mês.

Em 2017, a AAP e a SCML desafiaram a Câmara Municipal de Lisboa (CML) para a abertura de mais 2 Café Memória na cidade de Lisboa, ponderando várias possibilidades de locais, por forma a garantir uma maior cobertura geográfica deste projeto. Em Setembro do mesmo ano, demos início à dinamização de mais dois Café Memória, em conjunto com a CML: o CM do Campo Pequeno, realizado no Palácio Galveias ao 2.º sábado de cada mês e o CM Olivais, realizado na Quinta Pedagógica dos Olivais, no 4.º sábado de cada mês.

Temos por isso, atualmente a coordenação destes 4 locais, dois dos quais em parceria com a CML.

  1. De quais feitos mais se orgulha?

Não sei se poderei considerar “orgulho”, mas penso que não haverá nada mais compensador do que o feedback dos participantes. São mensagens, emails, telefonemas e palavras muito sinceras e profundas, de quem sente de facto a diferença. Na primeira pessoa. Internamente partilhamo-las com muita frequência, e é a essa sensação de dever cumprido que eventualmente nos trás algum desse tal

“Orgulho”.

Penso que qualquer membro da equipa, seja voluntário, técnico, coordenador, ou quem tenha alguma responsabilidade neste projeto o sente desta forma. Sobretudo os voluntários, que são já como uma segunda família de caras bem conhecidas para os participantes.

  1. Já passaram seis anos desde que o Café Memória foi criado. O que pensa que pode ainda acontecer neste projeto?

Acredito que os eixos de concretização para os participantes são essencialmente 3:

  • A criação de uma rede de apoio, feita por quem partilha experiências semelhantes;
  • A Informação disponível para questões que se possam colocar, quer enquanto cuidador, quer por quem tem suspeita ou mesmo diagnóstico de demência;
  • A disponibilização de um espaço social, divertido, acolhedor, informal, um “bem” tão necessário quanto os anteriores pontos.

E é por aqui que podemos pensar em como conseguimos chegar mais longe, com maior impacto e de forma inovadora.

Talvez pela criação de uma sub-rede dinamizada por parceiros locais informais, coordenada por “mentores”, ou pela existência de meios digitais que, apesar de não serem de acesso a todos, poderão facilitar a informação de forma mais estruturada e concertada.

O Café Memória “Faz-se à Estrada” foi sem dúvida um destes modelos de sucesso, o que permitiu chegar mais longe em termos de sensibilização. Estou certa que com a liderança e a grande equipa deste projeto, que o têm conseguido levar a todo o país, novas ideias, novos modelos, e novas respostas de grande impacto surgirão. Considerando o estimado aumento da esperança média de vida, bem como a atual incidência destas situações crónicas, serão respostas por demais necessárias e muitíssimo bem-vindas.

Continue acompanhando o projeto de Storytelling do Café Memória, teremos muitas entrevistas e conteúdos importantes pela frente.

June 18, 2019Comments are off for this post.

1º Capítulo – Storytelling Café Memória

Os projetos sonham-se, mas é preciso alguém que ajude a concretizá-los. Foi assim que, num primeiro momento, a Associação Alzheimer Portugal se juntou à Sonae Sierra. O conceito internacional “Memory Café” era um sonho que Elsa Monteiro, da Sonae Sierra, gostava de trazer para Portugal, por isso arregaçou as mangas e fez acontecer.

A este sonho juntaram-se a Associação Alzheimer Portugal, a Fundação Montepio, a Fundação Calouste Gulbenkian e o Instituto de Ciências da Saúde, da Universidade Católica Portuguesa.

Assim, o projeto-piloto Café Memória nasceu em Abril de 2013 para testar a adesão do público português. Os primeiros surgiram em Lisboa, no Centro Comercial Colombo e em Cascais. Menos de um ano depois, e já com o apoio da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, abriram mais dois Cafés. Hoje já existem 19 e a vontade é que o número não pare de crescer.

E como sempre que o homem sonha, o mundo pula e avança, até hoje já foram realizadas mais de 750 sessões de Café Memória, que já envolveram mais de 13200 participações maioritariamente de cuidadores e pessoas com demência.

Na Nave16 queremos estar ao lado dos que sonham e dos que concretizam. Porque acreditamos que o sonho comanda a vida.

Para o decorrer do projeto dividimos as entrevistas e as histórias em quatro capítulos, que são os principais pilares do Café Memória. Neste primeiro, falaremos dos parceiros, pessoas e empresas que tornaram o projeto realizável. Prepare-se para muitos conteúdos e histórias inspiradoras!

Quer saber mais? Fale connosco.
comercial@nave16.pt

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